Outra Quaresma?!

Hoje temos uma aula analítica sobre a Quaresma de São Miguel.

Mais uma vez, estamos atravessando uma época interessante do Ano Litúrgico – o calendário especial que os cristãos da maioria das denominações tradicionais utilizam (com algumas variações e particularidades, de acordo com a corrente).

Talvez você já tenha escutado sobre ela, a Quaresma de São Miguel, Arcanjo. É um período devocional que começa no dia 15 de agosto, e termina no dia 29 de setembro, em que se realizam práticas específicas, para avançar na vida espiritual.

Entretanto, ao invés de fazer uma simples apologética – só te contando sobre ela e como praticá-la – vou oferecer uma visão analítica sobre a Terceira Quaresma, explicando como ela surgiu e como se encaixa na doutrina, além de algumas questões críticas.

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Pintura do célebre Eugene Delacroix, no também célebre templo da paróquia de Saint Sulpice, em Paris, do ano de 1861.

Sobre a(s) Quaresma(s)

Para começar, o que é uma “quaresma”? Bem, todos estamos acostumados com a Quaresma “com letra maiúscula” – um período do Ano Litúrgico que precede o Tríduo Pascal, começando na Quarta-Feira de Cinzas. É isso mesmo.

O nome desse tempo, na verdade, é uma corruptela do nome em latim, quadragesima, que foi caindo em desuso à medida em que menos pessoas falavam a língua de Roma, e os idiomas locais (como o nosso português) iam surgindo nos reinos da Europa.

Durante a Quaresma pascal, os cristãos ficam submetidos a diversas observâncias – sejam elas prescritas pela Escritura, pela Tradição, ou ainda pelos costumes locais e devoções pessoais – com o objetivo de se aprofundar na vida espiritual, e se preparar para a Grande Semana.

Provavelmente você já está muito bem familiarizado com essas noções, porque o nosso país é profundamente influenciado, culturalmente, pelos costumes do catolicismo. Mesmo os que não professam essa fé, estão em contato com ela em vários momentos da vida, no cotidiano brasileiro.

Pois bem. Ainda no século IV, aparece um soldado romano da Gália (onde hoje fica a França), que se converteu ao cristianismo, e se tornou uma grande liderança na expansão da fé por aquele lugar. Esse homem passou à história com o nome de São Martinho.

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São Martinho sendo recebido pelos anjos, numa pintura de Pierre Pascal, em 1865.

Apesar de pouco conhecido por aqui, São Martinho é um dos santos mais importantes e respeitados ao norte dos Pirineus, e logo depois de sua morte, no ano 397, a veneração de sua figura já floresceu pela Europa. Foi assim que os cristãos daqueles reinos pré-medievais começaram a praticar outra “quaresma”: a Quaresma de São Martinho.

Esse segundo período, que começava no dia de São Martinho (a oitava da solenidade de Todos os Santos), se estendia até a solenidade da Epifania (que aqui costumamos chamar de “Dia de Reis”). Durante esse tempo, os fiéis se submetiam às costumeiras práticas penitenciais cristãs, se preparando para o Tempo do Natal.

A Quaresma de São Martinho foi tão difundida pela Europa, que pouco tempo depois, durante o Concílio de Tours (no final do século VI), a Igreja abraçou e oficializou esse período como um tempo litúrgico obrigatório: o Advento.

Assim nasceu a segunda “quaresma” obrigatória. É por este motivo – o caráter penitencial, e a jornada de aprofundamento espiritual que devemos empreender durante estes dois tempos litúrgicos – que a prescrição litúrgica para ambos é a cor violeta, que remete à introspecção e à solenidade, a seriedade da preparação para esses dois centros da vida cristã: a Páscoa e o Natal.

Quase mil anos depois, no final do século 12, a Idade Média foi completamente transformada pelo surgimento de um dos católicos mais famosos da história: São Francisco de Assis. Esse homem extraordinário fez tantas coisas relevantes para a história do cristianismo, e através disso, toda a humanidade, que seriam precisos muitos e muitos artigos para dar conta de toda sua trajetória.

Agora que você já conhece as duas quaresmas obrigatórias do calendário litúrgico, vamos finalmente seguir nossa reflexão de hoje para a Quaresma de São Miguel, uma devoção que começou graças a uma ideia desse fundador da grande e frutífera árvore de ordens franciscanas.

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Aqui, São Francisco retratado na gruta de La Verna, por Guido Reni, em 1610.

Francisco era tão preocupado com sua vivência espiritual, que considerava que as práticas penitenciais das duas quaresmas obrigatórias eram “pouco” para o quanto ele acreditava que precisava progredir na fé. [Se um cara como São Francisco precisava, imagina eu ou você…]

Assim, ele se decidiu por praticar uma terceira quaresma, de forma que juntando as três, passaria um terço do ano em jejum; a mesma quantidade de tempo que uma pessoa saudável deve ser ativa e produtiva: durante um terço do seu dia.

A terceira quaresma começaria na solenidade da Assunção, na metade de agosto; se estendendo até o dia de São Miguel, no final de setembro. A hagiografia de Francisco (o registro dos acontecimentos de sua vida de santidade) conta que ele se retirou para o monte La Verna, na primeira vez que desejou praticar esse período de recolhimento. E passou os dias em uma caverna que fica lá (e hoje foi convertida em um santuário monástico). Foi durante esse tempo quaresmal que ele experimentou o êxtase místico onde recebeu os estigmas de Cristo, no dia 17 de setembro, que é uma solenidade no calendário litúrgico franciscano.

Com a fundação da Ordem dos Frades Menores (OFM) – que rapidamente se tornou uma das maiores congregações da Igreja – a terceira quaresma foi incorporada às práticas obrigatórias que são particulares à espiritualidade dos monges e monjas franciscanos. Esse foi o modo como surgiu o costume de praticar mais especialmente o jejum, a oração e a esmola durante esse período do ano; que hoje em dia é mais comumente chamado de Quaresma de São Miguel.

Um resgate para os soldados

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Não se engane pela carinha: São Pio é muito bravo!

O modo de vida dos franciscanos (e de todos os consagrados, em geral) é bastante discreto. O resultado disso é que as inúmeras espiritualidades particulares de cada congregação acabam ficando desconhecidas da população em geral.

Enquanto isso, o povo também não tem, majoritariamente, o desejo de se aprofundar na compreensão das nuances e detalhes do pensamento e da cultura que a Tradição cristã tem a oferecer.

Como consequência dessas duas questões, a terceira quaresma acabou ficando quase que um costume “secreto”. Surgindo no Brasil por iniciativa dos neofranciscanos da Toca de Assis, ela foi sendo difundida ali no final da década de 2000, quase que de boca-ao-ouvido.

Até tempos muito recentes, não havia menções sobre essa devoção pela internet. Na Wikipedia, maior portal de pesquisas enciclopédicas colaborativas do mundo, apenas um dos 312 idiomas contém menções à terceira quaresma, a língua inglesa. O verbete foi criado no dia 21 de agosto de 2019, exatamente um ano atrás.

Nas redes sociais, esta devoção está presente há um pouco mais de tempo: o vídeo mais antigo do Youtube que a menciona foi incluído na plataforma no início de agosto de 2013, mesma época da primeira menção a ela no portal do padre Paulo Ricardo, muito proeminente no Brasil.

De fato, o resgate da terceira quaresma me parece estar ligado ao crescimento da veneração a outra figura importante do catolicismo contemporâneo: São Pio de Pietrelcina, muito querido pelas alas mais tradicionalistas dos católicos de hoje em dia.

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Observe o altar secundário dedicado a São Miguel, na capela do mosteiro onde morava o padre Pio, em San Giovanni Rotondo, na Itália.

O padre Pio foi um sacerdote do ramo capuchinho da OFM. Exímio exemplo da espiritualidade franciscana, este grande homem viveu uma vida completamente digna do legado de São Francisco. Naturalmente, por sua descendência monástica, ele era profundamente ligado à prática da terceira quaresma, obrigatória em sua congregação.

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Essa foto foi dificílima de conseguir. Acho que vale pelo menos um comentário seu, hahahah!

Mas para além da prática devocional e penitencial a que ele estava obrigado, São Pio era profundamente afeito à proximidade com São Miguel. Os escritos dele, e relatos de seus dirigidos sempre mencionam suas aflições espirituais, que ele afirmava serem ataques do Maligno. Por isso nada mais natural do que sua busca pela ajuda de Miguel.

No seu santuário, localizado na província italiana de Poggia, existe um belíssimo mosaico em que vemos o arcanjo entregando sua espada a São Pio ajoelhado, enquanto o abençoa.

É por essas razões que eu acredito que a devoção da terceira quaresma se consolidou, nos tempos contemporâneos. Como São Pio chamava-a de “Quaresma de São Miguel”, essa terminologia acabou ficando muito popular à medida em que mais e mais pessoas entravam em contato com a origem desta devoção e com as práticas associadas a ela.

Entretanto, dada à minha preocupação pessoal com a objetividade dos termos, e a consciência de quando escolhemos chamar as coisas por esse ou aquele nome, vamos progredir para a última parte desta exposição, onde investigaremos quem seria, verdadeiramente talvez, o dono dessa devoção.

Quaresma de São Miguel?

Apesar do carinho de São Pio pela veneração arcangélica, existem muitas outras raízes mais antigas que resultaram nesse entendimento a respeito da terceira quaresma. Basicamente, o carinho por São Miguel e a popularidade dele, relacionado ao aspecto mais combativo, marcial e militar da cristandade, sempre foram muito presentes no imaginário dos fiéis, de maneira ininterrupta.

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Hoje eu só trouxe gente brava pra nossa conversa, hahahaha!

Contudo, algumas épocas tiveram as tintas dessa relação mais carregadas, sobretudo nas épocas mais belicosas, quando as guerras eram mais sérias entre os europeus e os outros povos, ou mesmo entre os muitos reinos cristãos e seus interesses particulares.

Desta maneira, talvez o maior impulso à proximidade dos católicos com o príncipe das hostes celestes, foi o incentivo à prática diária desse contato, feito pelo pontífice Leão XIII. Durante o tempo em que ele ficou sentado no Trono de Pedro, final do século XIX, a Europa passava por sérias crises financeiras, chacoalhando o modelo industrial que vigorava naqueles países e já dava sinais de falha. A cada vez mais potente secularização que tinha sido iniciada pela Reforma Protestante, se potencializava pela alienação cultural e religiosa das populações mais pobres, cada vez mais segregadas. Havia os conflitos das tentativas de unificação da Itália; e diversos ânimos exaltados que acabariam culminando, duas décadas depois, na Primeira Guerra Mundial.

Nesse cenário sociopolítico (ou socioapocalíptico, como gosto de brincar com meus alunos), o papa Leão recomendou fortemente a veneração a São Miguel, inclusive alterando a liturgia da Missa para incluir o Pequeno Exorcismo, uma oração especial ao arcanjo. Esta fórmula foi obrigatória nas celebrações até 1985, quando passou para a condição de devoção opcional.

Voltando muitos séculos no passado, descobrimos que essa atribuição da Quaresma a São Miguel já está presente em São Boaventura. Aqui, cumpre fazer uma pausa para que eu demonstre a minha admiração por esse homem.

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São Boaventura era sacerdote da OFM, monge, foi ordenado nos três graus e se tornou cardeal e Doutor da Igreja. Uma das maiores mentes da humanidade.

São Boaventura era um monge franciscano, que estudou na Universidade de Paris, o maior centro científico do mundo até o século 18. Ele se formou no mestrado em 1257, na mesma turma que (pasmem) Santo Tomás de Aquino.

Quarenta anos depois da morte de São Francisco, São Boaventura escreveu uma hagiografia a respeito do fundador. Esta obra revela a interpretação do doutor, onde podemos encontrar o seguinte comentário:

Quando [Francisco] começou a jejuar lá [na caverna do monte], em honra de São Miguel, ele se sentiu satisfeito como se tivesse comido a se fartar. E como nunca antes, ficou preenchido pela doçura da contemplação celestial.

Lendo o relato acima, fica claro o entendimento de São Boaventura de que a prática de São Francisco era dedicada a São Miguel. Porém, um manuscrito mais antigo revela, numa carta de Francisco aos irmãos de sua comunidade, sua verdadeira opinião:

Meus filhos, se aproxima nosso dia de jejuar. Eu acredito, severamente, que é a Vontade de Deus que nós o façamos na montanha de La Verna, cuja qual a Divina Providência tornou-nos propícia para o fim que almejamos. De forma que possamos, através da penitência, merecer de Cristo a consolação de sermos consagrados naquela abençoada montanha, para a honra e glória de Deus; e de Sua gloriosa mãe, a Virgem Maria; e dos santos anjos.

Ou seja… Francisco colocava a Virgem Maria acima dos anjos, no que diz respeito à devoção quaresmal que ele praticava (e chamava seus companheiros monges a fazê-lo também) na caverna do monte.

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Observe Francisco e Miguel nesta pintura de Mattia Preti, no templo da paróquia de São Domingos, em Taverna, na Itália. Ambos estão submetidos a Maria.

Finalmente chegamos ao ponto que eu tencionava trazer você, desde o princípio. A partir das palavras do próprio Francisco, quero examinar o entendimento de que a terceira quaresma, na verdade, é uma devoção mariana.

Pois bem, voltando a Francisco, ele estabeleceu Maria como padroeira de todos os ramos que compõem as três ordens franciscanas. Ela é reverenciada nesse contexto sob o nome de Nossa Senhora dos Anjos.

O local mais sagrado para toda a família franciscana é uma pequena capela italiana chamada de Porciúncula, que fica na cidade de Assis. Esse nome, aportuguesamento de Porziuncola, significa “lugarzinho”.

Em 1205, Francisco estava passando por uma crise espiritual muito severa. Ele havia renunciado à herança de seu pai, e vivia há alguns meses mendigando e vivendo pelas colinas no entorno de Assis. Foi então que ele sonhou, e ouviu a voz do Pai que dizia a ele:

“Meu filho, vai e conserta a minha casa, que está caindo aos pedaços…”

Ao acordar, ele saiu pela cidade, e fora dos limites encontrou uma pequena capela, quase destruída. As paredes estavam arruinadas e praticamente não havia teto. Francisco entendeu aquilo como um sinal, e foi rezar ali. Na verdade, a pequena capela tinha sido construída há mais de mil anos por peregrinos vindos de Jerusalém, e tinha sido cuidada pelo próprio São Bento, por conta de uma relíquia da Virgem Maria que havia ali – um pedaço das vestes dela.

Dentro da capela em ruínas, havia um crucifixo pintado, todo ornamentado com cenas do Evangelho de João – a famosa Cruz de São Damião (vou falar sobre ela pra vocês em outro artigo, um dia). Foi então que Francisco ouviu novamente o pedido do Senhor. Dessa vez ele não esperou mais, saiu rapidamente para voltar a Assis, pedindo por pedras, madeiras e outros materiais para poder reconstruir a capela.

Durante esse processo, o rapaz se converteu completamente, reconstruindo diversas capelas arruinadas, enquanto ficava famoso na região. Ele sempre voltava à Porciúncula, que era seu lugar preferido no mundo. A capela era chamada de “Nossa Senhora dos Anjos”, porque diziam que, no silêncio da oração diante da relíquia mariana, era possível ouvir os coros angelicais.

Em 1226, perto de sua morte, Francisco pediu para ser levado de volta pra lá, onde faleceu no entardecer, após as Vésperas do dia 4 de outubro. A capelinha foi protegida com carinho pelas três ordens, e no século 17, foi construída em volta dela a Basílica de Nossa Senhora dos Anjos, epicentro do mundo franciscano.

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“Eu sou a Imaculada”, pintura de Bartolomeu Murillo, em 1660.

À parte da devoção franciscana, Maria é chamada de “rainha dos anjos”, regina angelorum, pelo menos desde o período patrístico; ao passo que Miguel recebe o título de “príncipe”, que na verdade é o aportuguesamento de princeps, que não é um título de nobreza inata, mas sim um título romano de comando, “primeiro cidadão”, “primeiro entre seus iguais”.

O segundo ponto que corrobora a natureza mariana da terceira quaresma é a associação dos outros períodos quaresmais a diferentes fases da vida de Maria, e aspectos de sua veneração.

A quaresma advenial, o início do Ano Litúrgico, que prepara o Natal, se relaciona aos primeiros estágios da vida dela, incluindo a solenidade da Imaculada Conceição (que acontece no começo de dezembro). Aqui temos a jovem Maria que se prepara, junto conosco, para o nascimento do Deus Menino. Na espiritualidade das congregações dominicanas e das confrarias seculares dedicadas ao Santo Rosário, é o tempo dos mistérios da Alegria (ou “Gozosos”)

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Pintura de Polidoro Caldara nas paredes da Villa [palácio de] Lante, em Roma. De 1535.
Depois disso, seguindo a roda calendárica dos tempos litúrgicos, temos a quaresma pascal, relacionada à veneração de Maria como a Senhora das Dores. De fato, esse tempo litúrgico tem observâncias especiais das congregações ligadas a essa espiritualidade penitencial, como os irmãos servitas.

Aqui caminhamos ao lado de Maria adulta, sem perder a doçura e a serenidade, mas suportando com resignação as provas extremas que seu amor por Jesus a fizeram sofrer. No Rosário, é o tempo dos mistérios da Dor (ou “Dolorosos”).

Uma dimensão pouco refletida (entre tantas) da mariologia, é a face de Nossa Senhora que está ligada à morte. Essa veneração teve seu começo com as iconografias da Descida da Cruz, onde Maria é chamada de Senhora da Piedade, acolhendo o corpo sem vida de Jesus.

Desenvolvendo-se a partir dessa iconografia, e da meditação desse mistério, Maria foi sendo abraçada como a derradeira companheira do cristão. Aquela que nos protege agora, e também na hora de nossa morte.

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São Miguel, arcanjo, levando almas para o Céu, numa iluminura do Saltério de Shaftessbury, do século XII.

É por isso que o último dia da semana (o sábado) é dedicado a ela. E por isso também que a última hora do dia – a Véspera, quando o sol se põe – é o momento em que paramos de trabalhar e rezamos o Ângelus. São práticas litúrgicas que nos relembram e fazem refletir sobre a finitude da vida, e reverenciar a Mãe que nos dá a mão no momento que mais assombra cada um de nós.

Até nesse ponto, São Miguel está relacionado e submetido a ela, por conta da longa tradição de psicopompo (condutor de almas), que abordarei também num artigo futuro (prometo que não vai demorar!).

Então, temos a quaresma advenial e a quaresma pascal, intimamente relacionadas à veneração mariana, e por meio dela aos estágios da vida de Cristo. Depois surge uma terceira.

Perceba que a continuidade mistagógica é completamente natural. Como se todos estes conceitos que eu expus até agora já estivessem aí. Como se os santos não os tivessem inventado, mas apenas descoberto.

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Assunção da Virgem, pintura de Michel Sittow, em 1490.

Pois bem, a terceira quaresma, que eu gosto mais de chamar de “Quaresma de Maria”, ou de “Quaresma da Assunção“, começa no dia 15 de agosto – solenidade em que celebramos o mistério da subida de Maria aos Céus, seguida de perto pelo dia 22, quando celebramos a sua Coroação. Naturalmente, o período que principia nesse dia deveria ser associado a um aspecto da veneração mariana. E ele começa justamente na glorificação da virgem bem-aventurada.

Assim aqui vislumbramos Deus que, por sua Graça, glorifica Maria nos Céus. É o tempo dos mistérios da Glória (ou “Gloriosos”, você sabe). É interessante notar que diversas tradições indicam – como registrado por Tiago de Voragine na Legenda Aurea – que o próprio Miguel liderou os anjos para transportá-la para junto de Deus.

Nesse momento você poderia levantar um questionamento: “Mas a quaresma advenial termina na Epifania; e a quaresma pascal termina na Páscoa. A terceira quaresma não pode ser mariana, porque ela termina no dia de São Miguel!”

É um excelente ponto. É por isso que te chamo a atenção para a leitura prevista para o dia de São Miguel, que nos traz, no capítulo 12 da Revelação de São João, o Apocalipse, a visão esplendorosa da mulher vestida de sol. Aquela que tem a lua debaixo dos pés e doze estrelas coroando sua cabeça.

Mais uma vez nos encontramos com Maria, a Senhora do Apocalipse, que virá para esmagar a cabeça da antiga Serpente. Ao lado de Miguel, que é profetizado nos versos seguintes vindo para lutar contra o grande Dragão, os dois são a formidável dupla que encabeça a cristandade nas batalhas espirituais, no presente e no futuro.

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Essa é a imagem que eu escolhi para a capa do artigo, uma ilustração dos versos de Apocalipse 12, por Miguel Cabrera, em 1760. Repare que, neste quarto estágio, Maria vem alada.

Bem, agora que já expus os fatos e a compreensão que podemos tirar deles, acho que podemos concluir essa conversa retomando a parceria indivisível entre Maria e Miguel, espelho para cada um de nós no caminho rumo à santidade. Até o próprio São Francisco os elencava, como ele disse em 1224, quando subiu mais uma vez para o ermo de La Verna:

“Para honra de Deus, da bem-aventurada Virgem Maria e de São Miguel, Príncipe dos Anjos e das almas, quero fazer aqui uma quaresma”.

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Coroação da Virgem, pintura de Giacomo di Mino, em 1350.

Hoje foi a festa da Coroação de Maria, dia 22 de agosto. Essa realidade de fé foi incluída como o quinto mistério glorioso, por São Domingos de Gusmão, e foi o motivo de eu ter escrito esse longo texto, com o incentivo do meu amigo Igor, que é médico no estado de São Paulo; e a colaboração do padre João, meu amigo do Rio de Janeiro.

Como disse no começo, este ensaio não é pastoral: e não pretende te convencer a praticar a terceira quaresma (nem mesmo a ser cristão). É uma iniciativa honesta de explicar, caso te interesse, como a cristandade – e mais especificamente a tradição católica – entende essas questões.

É por isso que não vou incluir fórmulas, litanias, orações ou instruções para a prática quaresmal. Absolutamente todos os sites que falam desse tema, praticamente, só têm essas informações. Você não terá dificuldade em encontrar, se for da sua vontade.

Entretanto, como um pequeno bônus, vou deixar ao final uma singela prece que foi ditada pela própria Maria ao beato Luís Eduardo Cestac. Esse padre francês, em 1864, experienciou uma aparição de Nossa Senhora dos Anjos, que lhe fez uma revelação grave, e confiou estes versos da oração que coloco abaixo. A oração foi recebida e aprovada por Dom François de la Croix, bispo da diocese de Bayonne, que depois remeteu à Santa Sé.

Em 1908, o pontífice Pio X enriqueceu esta oração com indulgências, e desde então, é costume que ela sejam utilizada para terminar as práticas diárias de orações especiais durante a Terceira Quaresma; e pra mim parece muito poético: terminamos o dia rezando para Maria, terminamos a semana rezando para ela. Nada mais justo do que terminar esse artigo sobre ela, com essa prece tão linda.

Augusta Rainha

Augusta Rainha dos céus, soberana mestra dos anjos!
Vós que, desde o princípio, recebestes de Deus
o poder e a missão de esmagar a cabeça de Satanás,
Nós vos pedimos humildemente:
Enviai vossas legiões celestes para que,
sob vossas ordens, e por vosso poder,
Elas persigam os demônios, combatendo-os por toda a parte,
Reprimindo-lhes a insolência, e lançando-os no abismo.
Quem é como Deus?
Ó Mãe de bondade e ternura,
Vós sereis sempre o nosso Amor e a nossa esperança.
Ó Mãe Divina,
Enviai os santos anjos para nos defenderem,
E repeli para longe de nós o cruel inimigo.
Santos Anjos e Arcanjos,
Defendei-nos e guardai-nos.

Amém.

Miguel e Nossa Senhora dos Anjos

Obrigado pela sua companhia, mais uma vez. E espero te encontrar de novo em breve! Se você gostou do artigo, tem críticas, sugestões ou alguma dúvida, comente aqui embaixo, que vou ficar muito feliz de te responder. Abraço forte!


Abaixo, deixo as fontes que utilizei na pesquisa para este ensaio, e que recomendo para leituras mais aprofundadas sobre este tema e outros relacionados.

Fontes mais ou menos Específicas:

– O Dicionário de Artes, Ciências, Literatura e Cultura Geral, publicado pela Encyclopædia Britannica. Eu usei a versão de 1911, para falar dos contextos da mudança de século do XIX para o XX, tempo do papa Leão. Também peguei o artigo sobre São Martinho de Tours de lá.

– A própria Enciclopédia Britânica, que chamamos às vezes de Mirador ou de Barsa, aqui no Brasil. Eu cresci usando esses livros como fonte, nas bibliotecas públicas. Morria de vontade de comprar, mas era mais caro que um carro. Hoje em dia é bem barato, porque não se usam mais enciclopédias impressas. Ela também contém artigos para praticamente todas as personalidades que mencionamos – mas não menciona a Quaresma de São Miguel, só a de São Martinho.

– A Enciclopédia Católica, também disponivel apenas online, depois do declínio das enciclopédias no século XXI. É uma fonte muito confiável e didática para as hagiografias. Embora seja, de alguma maneira, superficial, ela tem muito boas referências, que se tornam ganchos importantes para aprofundar a sua pesquisa.

– A obra Glória dos Mártires, de São Gregório de Tours, que hagiografa São Martinho. Eu usei a versão francesa, publicada pela Universidade de Paris, mas imagino que exista traduzido, porque é parte importante do corpus teológico pré-medieval.

– O livro Jornada ao Coração de Deus: Vivendo o Ano Litúrgico, do Phillip Pffateicher da Universidade de Oxford. Não tem tradução para o português. É uma obra sobre a evolução das noções da Cristandade a respeito da celebração ao longo do ano. Usei como fonte para a questão da fixação das Quaresmas obrigatórias, principalmente a Quaresma de São Martinho.

– A obra A vida de São Francisco, escrita em 1266 por Giovanni di Fidanza, nome civil do lendário São Boaventura. Usei a tradução do latim para o inglês, como fonte das interpretações boaventurianas sobre a espiritualidade franciscana.

– A obra As Florinhas de São Francisco, escrita também na Idade Média. Essa é uma das obras mais importantes da literatura medieval. Você acha facinho, tem mil traduções, em mil editoras. Trata, por exemplo, dos casos que falamos neste artigo, e também da amizade que Francisco manteve com outros personagens importantes da cristandade, como Antônio e Clara. Leia.

– O livro São Francisco de Assis, escrito pelo jornalista G. K. Chesterton em 1923. Feito com bastante rigor metodológico, é a hagiografia que mais gosto para este santo.

– A coletânea Escritos de São Francisco, organizada pela iniciativa Franciscan Experience, da OFM. Eu usei a versão anglófona, mas durante a pesquisa encontrei uma tradução para o português, feita pelo frei Edmundo Binder, em 1973.

– O livro Francisco de Assis: A mensagem em seus escritos, escrito pelo frei Thaddee Matura, da OFM. Também usei uma tradução para o inglês, mas acredito que exista uma versão brasileira, porque já vi outros livros desse monge por aqui. Este é uma fonte importante para entender como os ramos da família franciscana entendem a espiritualidade de seu fundador.

– O artigo Um período de jejum praticado por São Francisco, do Philip Kosloski, mestre em teologia americano. O prof. Kosloski foi um dos pioneiros, há quase vinte anos, a relacionar a doutrina da Igreja com o corpus tolkieniano (influenciando o padre Paulo, por exemplo).

– O livro A vida de Sua Santidade, o papa Leão XII, de Richard Clarke. Também não tem tradução. Toca nas preocupações administrativas, políticas e teológicas desse pontífice, e seu foco no combate espiritual.

– O livro A espiritualidade de Padre Pio, organizado pelo frei Alessio Parente, da OFM. Também não tem tradução. Para essa pesquisa, utilizei os registros do irmão Augustine McGregor, que é monge trapista, sobre o contato espiritual que São Pio mantinha com São Miguel, entre outros detalhes de suas particularidades devocionais.

– O livro Padre Pio: Milagres e Política numa era secular, do Sergio Luzzatto. Também não tem tradução para o português. É um livro que causou uma grande polêmica nos católicos italianos, porque tem uma abordagem jornalista mais crítica a respeito da vida do santo. Contudo, diversos nomes importantes do catolicismo italiano ressaltaram que a obra por si só não tem um caráter desconstrutor, e que o contraponto é interessante à medida em que provoca oportunidades de conversa sobre os temas.

– O livro Anjos e Dragões, do diácono Guadalupe Rodriguez. Também não tem tradução. É uma coleção de artigos sobre a veneração arcangélica. Nesta pesquisa serviu como fonte comparativa, além de fornecer detalhes importantes sobre as visões particulares de São Pio, São Leão, entre outros.

– O Sermão para a Coroação, de São Jerônimo. Uma entre tantas fontes da Tradição patrística que ressaltam a superioridade de Maria sobre todos os anjos e santos. Usei uma versão traduzida do latim para o inglês, publicada pela Universidade de Augusta. Mas imagino que seja possível de ser encontrada em português.

Fontes Gerais:

– O livro Religião Comparada para Leigos, da editora estrangeira For Dummies. Acho que não tem versão em português. Usei este para verificar quais denominações cristãs utilizam o mesmo calendário litúrgico.

– A Legenda Aurea, publicada em 1266 por Tiago de Voragine. É uma coleção muito famosa de hagiografias, que coleta as visões medievais sobre as tradições e folclores relacionados à veneração dos santos.

– a página da Wikipedia (em inglês) sobre a Quaresma de São Miguel, que se chama St. Michael’s Lent. Lá também está o histórico de edições com os dados de criação e os debates por alterações no conteúdo do verbete.

– Portal Aleteia, que conta com uma versão em português, que contém muitos material pastoral e formacional sobre o catolicismo.

– Portal do padre Paulo Ricardo, um dos mais importantes núcleos de difusão do catolicismo brasileiro. Frequentemente trata do tema da Terceira Quaresma, ao longo do ano, com artigos, vídeos, cursos e lives.

– O Enchiridion Indulgentiarum, uma constituição apostólica da Igreja, que é uma espécie de manual sobre a economia da salvação e a doutrina das indulgências. Nessa obra você vai entender a teologia sobre essa questão, e encontrar o direcionamento pastoral e as instruções práticas que são pertinentes.

– O Catecismo da Igreja Católica, leitura obrigatória para quem se considera integrante dessa fé. Trata de toda a doutrina, e nessa pesquisa foi a base para as considerações sobre o que é obrigatório ou opcional. Leia.

– O Missal Romano, fonte das rubricas (prescrições) referentes ao calendário litúrgico, onde se pode encontrar as leituras previstas para cada dia específico.

– A Bíblia Sagrada da CNBB, reeditada recentemente, com base na Vulgata traduzida por São Jerônimo. Uma obra de tradução muito primorosa, voltada para o uso litúrgico das Escrituras. É o texto utilizado nas missas e publicações da ICAR no Brasil.

14 comentários Adicione o seu

  1. Flavio Moraes disse:

    Brilhante meu irmão. Que aula maravilhosa de iluminação aos caminhos ocultos, sensacional essa leitura para esse dia gelado , aqueceu nosso corações . Abraços fraterno

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    1. Luigi Gomes disse:

      Obrigado pelo carinho, meu amigo!

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      1. frazaozinho disse:

        Demasiadamente incrível, achei este artigo muito legal, ainda mais para mim que em breve serei batizado então conhecer essas raizes mais profundas da cristandade nos seus artigos está sendo sensacional, obrigado!

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  2. Suzy Gomes disse:

    Eu sou a mãe mais orgulhosa de se ver 🤣 te amo, são Miguel, São Francisco de Assis e nossa senhora dos anjos te abençoe e proteja sempre.

    Resposta do Luigi: Hahaha só os profissionais têm comentário da mamãe! Obrigado pela bênção da senhora. Que protejam a todos nós, meu amor.

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  3. Luiz Alexandre disse:

    Fiquei maravilhado pelo capricho no preparo do texto. A vastidão de fontes também é impressionante. Gostei muito de tudo que aprendi.

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    1. Luigi Gomes disse:

      Espero que sejam úteis para seu crescimento intelectual e espiritual!

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  4. Abtino Berlanda Costa disse:

    Interessante e importante texto. Também as fontes merecem um destaque especial.
    Mais ainda, a tua capacidade e interesse em procurar nos transmitir, de forma mais simples, a complexidade da vida dos Santos.
    Nos reacende a chama Cristica que se afogava nas cinzas do consumismo e da posse de bens terrenos.
    Obrigado e que a Virgem nos abençoe

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  5. João Batista Alves Ferreira disse:

    Parabéns meu amado sobrinho , sempre te amei muito, e vc está cada vez mais correspondendo as expectativas. Um abraço

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    1. Luigi Gomes disse:

      Obrigado pelo carinho, meu tio. Espero poder fazer à altura das expectativas!

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  6. Felipe de Castro disse:

    Uma verdadeira aula, Luigi. Estou surpreso com a beleza das Quaresmas, sendo que, a construção do artigo me deixou fascinado. Posso te garantir, um artigo apologético não surtiria tal sentimento

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    1. Luigi Gomes disse:

      Muito obrigado, meu amigo. Espero contar com sua leitura e contribuições nos próximos textos!

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  7. rmenezes12 disse:

    Parabéns Luigi, texto maravilhoso!

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    1. Luigi Gomes disse:

      Obrigado, meu amigo!

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