não eram gêmeos!
Saudações!
Hoje, celebrando a memória desta dupla de santos, tão queridos pelo imaginário popular brasileiro, discutiremos um pouco sobre a hagiografia e a iconografia de São Cosme e São Damião. Você vai descobrir, entre outras coisas:
- que eles foram martirizados e são venerados como uma família não-tradicional;
- que eles foram responsáveis pela criação de um importante remédio, que você com certeza já usou;
- que a iconografia clássica deles é diferente do que você imagina;
- e, claro, que eles não eram gêmeos.
Assim, sem mais demora, venha comigo neste passeio.
Conhecidos, mas nem tanto
Cosme e Damião são dois rostos muito comuns, na cultura de nosso país. Vestidos com túnicas verdes e mantos vermelhos, os dois santos seguram, cada um, a palma do martírio e uma caixa de remédios, nas mãos. Assim, eles são retratados na imagem que é reproduzida infinitamente, em camisetas, estátuas e saquinhos de papel, para colocar e distribuir doces e balas.
Entretanto, apesar de facilmente reconhecíveis, suas vidas, feitos e crenças permanecem uma incógnita, para a maioria das pessoas. Quem foram São Cosme e São Damião? Onde viveram? O que faziam da vida? E, principalmente, por que motivo são venerados entre os santos da cristandade?

Ao contrário de outras figuras obscuras com origem no folclore pré-cristão, como é comum entre os santos dos primeiros séculos do cristianismo, Cosme e Damião têm, relativamente, um conjunto de evidências documentais mais ou menos coeso.
Tendo sido executados durante a perseguição aos cristãos que foi decretada pelo imperador Diocleciano, no final do século 3, seus registros ficaram preservados pelos próprios funcionários romanos, que se ocupavam de documentar o processo de acusação, condenação, execução e antecedentes dos réus do Estado Imperial.
Assim, conseguimos saber que os dois eram médicos, de etnia arábica, que viviam na Cilícia, uma província romana que se localizava onde hoje é o sul da Turquia, na Ásia Menor.
Apesar da crença popular, os dois não eram gêmeos. Cosme, o mais velho, era um estimado cientista, versado nas ciências dos números, dos astros e da cura. Ele havia se formado, na África, na universidade de Alexandria, onde ficava a célebre biblioteca, e o farol que foi considerado uma maravilha do mundo antigo.
De origem abastada, das elites romanas, Cosme (ou, na grafia original, Kosmás, em grego) pôde se dedicar aos estudos, um luxo para poucos, naquela época em que haviam pouquíssimas escolas, no mundo.
Mas Alexandria, no delta do rio Nilo, era não só um importantíssimo centro de cultura helênica, como também um dos cinco patriarcados em que o Cristianismo pulsava com maior força. E provavelmente foi lá, no mesmo lugar por onde viveram, amaram e morreram Santo Agostinho, Santa Catarina, São Cirilo, São Nicolau, Santo Atanásio e Santo Antão, entre outras centenas, que Cosme se tornou, ele também, um cristão.
De lá, após formado, ele foi exercer a profissão navegando do grande porto egípcio para norte, nas águas quentes do Mediterrâneo, visitando muitas ilhas gregas até aportar em Egéia, importante cidade costeira da Cilícia, onde ele viveria o resto de seus dias.
Em Egéia, Cosme curou uma pobre viúva chamada Teodora, que sofria de uma doença provocada pela desnutrição. Em retribuição, como não podia pagar pelos serviços de Cosme, ela passou a ajudá-lo nos serviços da clínica, como uma espécie de secretária/enfermeira.
Teodora tinha um filho, o jovem Damião (ou Damianós, em grego). E este rapaz, pela proximidade com os dois, no trabalho cotidiano da profissão, se tornou um aprendiz, com um especial carinho pela produção de remédios, como poções e pomadas. Assim, havia um cirurgião, uma enfermeira e um farmacêutico, naquela pequena família que se formava.

Com o tempo, e a excelência de seus trabalhos, a clínica mantida por Cosme, Teodora e Damião se tornou muito próspera, de forma que eles passaram a receber e curar gratuitamente aqueles que não podiam pagar pelos tratamentos.
Um alquimista italiano do século 15, na Renascença, escreveu que o importante remédio medieval chamado de electuarium tinha sido inventado por São Damião. O electuarium era, nada mais que, um composto em que se misturava água e mel a um princípio ativo amargo, de forma que o paciente pudesse beber sem vomitar.
Sim, é isso mesmo que você entendeu. São Damião inventou o xarope!

Profundamente cristãos, Cosme, Teodora e Damião ainda promoviam um grande trabalho missionário e catequético, convertendo muitas pessoas no processo. Entre inúmeras curas, o milagre mais famoso que eles realizaram foi um transplante!
Um de seus pacientes, um homem romano chamado Justino, precisou passar por uma amputação; e São Cosme foi capaz de transplantar, nele, a perna direita de um homem etíope que havia acabado de falecer.

Um fato interessante, além disso, é que Cosme e Damião adotaram nada menos que três garotos. A adoção de crianças era uma prática muito comum, entre os cristãos da Idade Antiga. Isto porque as pessoas daquelas sociedades tinham, como costume aceito, a prática de descartar crianças não desejadas, como bebês doentes, órfãos, ou até mesmo quando não nasciam com o gênero desejado pelos pais.
Por este motivo, os cristãos primitivos organizavam grandes redes de apoio, para encontrar e acolher crianças indesejadas, que eram criadas por famílias, comunidades, ou até mesmo pelos sacerdotes, formando os primeiros orfanatos do mundo. Prática que ainda continua sendo mantida por congregações e denominações cristãs até os dias de hoje.
Os três meninos se chamavam Antímio, que ja era um rapaz, quase adulto; Leôncio, que era um adolescente; e Euprépio, um garotinho pequeno.

Algum tempo depois, infelizmente, o imperador Diocleciano tornou a proibição ao cristianismo ainda mais severa, de forma que a família foi toda presa, sob a custódia de Lícias, o governador romano daquela província onde eles moravam.

Em seguida, a família foi submetida a todo tipo de humilhações e torturas. O governador Lícias ordenou que eles demonstrassem sua fé na divindade do imperador, prestando culto e louvor a uma estátua; mas todos os cinco homens se recusaram a fazê-lo. Eles declararam que sua fé estava depositada em Jesus Cristo, Deus Filho que se fez Homem.
Para quebrar os espíritos deles, com sua crueldade, Lícias mandou atirar os três meninos no mar, acorrentados a pedras, para que se afogassem diante de Cosme e Damião. Contudo, os dois adultos ficaram impassíveis diante do horror, porque confiavam profundamente, em seus corações, que nada aconteceria.
Os meninos se debateram nas águas, e por fim afundaram. Algumas horas depois, porém, eles foram encontrados pelos guardas nas areias da praia, ainda acorrentados, mas sãos e salvos. Tinham sido resgatados por forças angelicais, e foram levados de volta para o governador.

Espantado com o resgate milagroso, Lícias passou a acreditar que Cosme e Damião eram feiticeiros poderosos, e quis que os par de médicos lhe ensinasse como praticar magia. Ele ofereceu a eles a liberdade, se lhe dissessem como voar ou vencer as águas do mar.
Mas Cosme e os outros quatro responderam apenas dizendo que a obra era de Jesus Cristo, e convidaram o governador a abrir seu coração para a palavra de Deus.
Incrédulo a respeito daquilo, Lícias, que já conhecia a simplicidade da doutrina cristã, teimava em pensar que os feitos dos irmãos tinham alguma natureza oculta. E se decidiu por testá-los, para ver até onde chegava a potência de sua magia.
Ele ordenou que os cinco fossem queimados vivos, mas as chamas dançaram em torno deles, como com os rapazes no forno de Nabucodonosor. Os algozes foram incinerados, mas os cinco saíram intactos.

Lícias ordenou que eles fossem apedrejados, e mortos a flechadas. Mas novamente, os objetos se recusavam a acertar os cinco homens. Assim, ele encarcerou os três meninos menores, e mandou crucificar Cosme e Damião. Mas nem o suplício, os pregos, a sede e o calor foram suficientes para matar os dois médicos.
Por fim, o governador mandou despregar os dois, e trouxe os três meninos à sua presença. Ali, ele tomou da espada, e decapitou Antímio, Leôncio e Euprépio, diante dos olhos de Cosme e Damião, que estavam tão enfraquecidos, que não puderam nem mesmo gritar de desespero.
Depois, ele mesmo cortou as cabeças dos dois.

Como é o costume entre os cristãos, seus corpos foram recuperados depois do descarte, e no lugar onde foram sepultados, ergueu-se um templo, que se tornou a Basílica de Cosme e Damião, na Síria. Hoje, esta igreja não existe mais – toda a antiga cidade de Ciro é um grande sítio arqueológico do tempo imperial romano.
Duzentos anos depois, o papa Félix IV mandou construir, em Roma, uma basílica para acomodar as relíquias – os ossos da família – que existe até os tempos atuais. A basílica foi construída a partir das ruínas do Forum de Vespasiano, e concluída no ano de 530.

Por que gêmeos, então?
Os estudiosos de hagiologia (o campo acadêmico da teologia que se encarrega de compreender os santos) têm em consenso que uma soma de fatores se uniu, para criar a grande confusão quanto à natureza da relação entre Cosme e Damião. Aqui, vou explicar os três fatores principais, para você.
O primeiro, e mais complicado, é um termo que você provavelmente não conhece. Adelphopoiesis, ou “adelfopoiese”, numa tentativa esdrúxula de aportuguesar esse nome grego, é um subsacramento, uma cerimônia litúrgica cristã que consiste em unir, como família, duas pessoas que não são parentes de sangue – mas que passam a ser aceitas e tratadas como tal, pela sociedade.
Na Idade Antiga, os órfãos e as viúvas viviam numa situação de profunda vulnerabilidade social. A eles não havia direitos nem assistência, de forma que, com frequência, sobreviviam de caridade – ou morriam de fome.
Assim, os cristãos criaram um método de vincular, como família, pessoas que não eram consanguíneas entre si, de forma que um pudesse ser beneficiado pelos direitos a que o outro fazia jus. Cada um deles era, então, chamado de pneumatikos adelphos, ou “irmão de alma”.

Esse tipo de proximidade entre um homem mais velho e um rapaz era muito comum, na Idade Antiga. Especialmente no contexto profissional, quando um artesão ou cientista, ou ainda um filósofo, tomava pra si um aprendiz, que passava a morar com ele, no processo de formação.
Cosme, como médico experiente, tomou Damião como seu aprendiz, e a relação deles evoluiu até serem unidos, civil e religiosamente, pela adelphopoiesis. Foi a partir disso, por exemplo, que eles puderam adotar crianças, na pessoa de Antímio, Leôncio e Euprépio.
Existem muitos santos que são venerados em pares, e que foram unidos pelo subsacramento da adelphopoiesis. Entre eles, temos São Sérgio e São Baco; Santa Perpétua e Santa Felicidade; que são, inclusive, citados no Cânon Romano, a Oração Eucarística número 1.

Sendo tão próximos, inclusive espiritualmente falando, era muito natural que, após seu martírio, Cosme e Damião fossem venerados em conjunto. E a incapacidade, por parte de certos artistas mais simples ou sem estudo/técnica de ilustração, também contribuiu para que fossem gradativamente se confundindo, em suas aparências.
O segundo fator, de três, é bastante inusitado: a confusão, por parte dos hagiógrafos (os escritores e historiadores dos santos), quanto à identidade deles.
Na verdade, existe mais de um par de santos que são chamados “Cosme e Damião”. E é aí que fica realmente complicado.
O par original, sobre quem você leu acima, e que eram médicos e mártires, de fato não eram irmãos.
Contudo, há um segundo par de Cosme e Damião, desta vez de etnia romana, e nascidos já no tempo em que o cristianismo era a religião oficial do Império. Estes, sim, irmãos de sangue, foram batizados em honra do primeiro par, de quem seus pais eram devotos sinceros.
Aliás, você mesmo deve conhecer famílias cristãs que colocam, em seus filhos, nomes de santos que não eram parentes entre si. Há incontáveis pares de Pedros e Paulos; Mateus e Marcos; e assim por diante.
Este segundo par, frequentemente confundido com o primeiro, não sucumbiu ao martírio. Desta vez, foram acometidos de doença, e pereceream acamados. Por isso, eles não são mártires!
Há relatos muito interessantes sobre seus milagres e brigas entre si, mas não vamos desviar a sua atenção com isso neste momento. O segundo par de Cosme e Damião é venerado pelos bizantinos e orientais em geral, e tem sua memória celebrada no dia 1 de julho.
Alguns autores ainda falam sobre um terceiro par, mas não encontrei nenhuma referência literária substancial – embora seja bem provável que possam ter existido, sim.

O terceiro, e último, fator que levou à “geminização” de Cosme e Damião foi o sincretismo. Já no tempo romano, diversos santos dos primeiros séculos foram alçados a um patamar quase que divino, ocupando, na mentalidade dos cristãos recém-convertidos, o lugar de antigos heróis dos mitos gregos e romanos.
Assim, foi natural que, durante as representações, os santos absorvessem, no imaginário popular, elementos dessas figuras folclóricas. No caso de Cosme e Damião,assim como aconteceu com Sérgio e Baco, os romanos veneravam, no tempo pagão, uma dupla de semideuses chamadas, em grego, de Dioskuroi. Os dois, cujos nomes eram Castor e Pólux, eram guerreiros muito importantes de Esparta – gêmeos, filhos da rainha Leda.
Castor era filho de Leda e marido, o rei Tíndaro. Pólux, por sua vez, era filho de Leda e de Zeus, o rei do Olimpo. Nascendo juntos, os meninos se tornaram importantes heróis, e terminaram suas vidas sendo eternizados no Zodíaco, sob a forma da Constelação de Gêmeos.
Diversos templos dedicados aos Dioskuroi foram, depois, reformados e transformados em templos dedicados a pares de santos, como Pedro e Paulo; Sérgio e Baco; e Cosme e Damião.
Mil anos depois, durante o processo de sequestro dos povos africanos, para povoar as colônias europeias na América, outra camada de sincretismo se adicionou ao culto de Cosme e de Damião.
O povo da etnia bantu, originário da região onde hoje fica a Angola, cultuava nkisi (divindades) gêmeos chamados Nvunji, deuses associados à inocência e brincadeiras. Já o povo da etnia nagô, originário da região que hoje fica dividida entre Nigéria, Benin e Togo, cultuava orisha (divindades) chamados Ibeji, também associados à infância, travessuras, curas e outros domínios. Eles eram várias crianças divinas, em número de 3 a 9, conforme o cronista.
Aqui no Brasil, a mistura desarticulante entre pessoas dessas etnias, ligados aos esforços proibitórios dos cultos, acabou por produzir, como sabemos, formas religiosas sincréticas entre as ancestralidades africanas e o cristianismo europeu.
E, quanto a Cosme e Damião, passaram a ser representados como crianças; e por vezes associados a um terceiro menino, e com rostos e roupas iguais, unindo elementos estéticos e simbólicos de várias tradições.

Bem… Eu estava com uma profunda saudade de dividir conteúdo com você. Espero que você tenha gostado desse passeio que fizemos juntos pela cultura cristã, e conto com você na próxima vez!
Se tiver alguma dúvida ou comentário, deixe aqui embaixo que eu te respondo. E se tiver doces, mande pra mim!
